El GRUPO POLIS, cumpliendo con el fin de seguir contribuyendo al fortalecimiento del conocimiento para el bien de nuestras ciudades; alcanzamos el presente resumen del Libro MODERNIDAD y VIVIENDA, enviado por la autora Dr. Arq. Lilian Fessler Vaz, para su difusión y recepción de comentarios, en el email: gpolis@...

MODERNIDADE E MORADIA
HABITAÇÃO COLETIVA NO RIO DE JANEIRO, SÉCULOS XIX E XX[1]
Prof. Dr. Lilian Fessler Vaz
PROURB/FAU/UFRJ
Apresentação
Com a Revolução Industrial a cidade se transformou no principal habitat humano. O aumento e a concentração demográfica se fizeram patentes através das edificações, em particular das habitações. À medida que novos contingentes de população afluiram e se aglomeraram na cidade, a habitação atravessou profundas modificações. Devido à aglomeração na moradia, esta passou a se coletivizar e a se concentrar em grupos. A habitação coletiva ou multifamiliar tornou-se aos poucos um importante padrão de moradia da cidade moderna e contemporânea.
Na cidade do Rio de Janeiro, no século XIX, quando o espaço edificado se constituía basicamente de casas térreas e de sobrados, surgiram as estalagens ou cortiços. A estes se seguiram outras formas até o edifício de apartamentos contemporâneo. Além de coletivas, os cortiços eram a principal modalidade da habitação popular, que desapareceu no decorrer dos tempos modernos Hoje, o principal tipo de moradia do carioca é o apartamento, e o principal tipo de habitação popular, a favela. O cortiço, primeira forma da moradia coletiva na foi combatida como uma manifestação negativa e degradante dos tempos modernos; posteriormente o arranha-céu, sua forma aprimorada, foi considerado como emblemático da nossa modernidade e de status social elevado.
Dados de 1995 indicam que os apartamentos representam o tipo de imóvel residencial predominante, aproximadamente o dobro do número do segundo tipo predominante, as casas e sobrados. Quanto à habitação popular, as casas de favela mantém-se como o padrão de moradia que abriga o maior contingente de população: cerca de um milhão de habitantes, dos 5,5 milhões de cariocas[2]. Como ocorrem estas mudanças? Como surgem, permanecem, desaparecem estas formas? Como e por que deixam de abrigar as camadas populares e passam a alojar as classes médias? Qual a relação que existe entre estas formas? Como explicar que passem de símbolos de degradação e decadência a símbolos de virtude e progresso?
Na vasta bibliografia disponível sobre cidade e habitação não encontramos respostas suficientes a estas perguntas. No que diz respeito à bibliografia sobre a história da cidade do Rio de Janeiro verificamos as publicações mais consideradas, dos cronistas mais antigos aos estudos contemporâneos como os de Abreu (1987, 1991) e Benchimol (1980).
Quanto ao campo da habitação, além dos autores já considerados clássicos, como N. Goulart Reis Filho, E. Maricato, N. Bonduki e S. Pasternak, encontramos na bibliografia recente sobre a cidade do Rio de Janeiro diversos estudos afins. No entanto centram-se em aspectos específicos, como da habitação operária (Weid e Bastos, 1986 e Lobo, Carvalho e Stanley, 1989), da promoção pública no período getulista (Porto, 1938), da formação do capital imobiliário (Ribeiro, 1997) ou das favelas (Santos, 1983). Outros, são extremamente abrangentes, versando sobre a arquitetura (Costa, 1965 e P. Santos, 1981), sobre a habitação social (Bonduki, 1998), sobre a habitação popular (Valladares, 1983 e Gordilho-Souza, 1997), ou sobre a moradia em geral, seja sob enfoque mais técnico, mais antropológico, mais histórico ou mais político.
Muitos escritos sobre cidade e habitação tratam também de temas como o modernismo e a modernização. No entanto, no que diz respeito à bibliografia sobre a moradia como expressão dos tempos modernos, verificamos que muitos autores fazem alguma referencias rápidas à relação entre edificações e seus significados, mas poucos se detém para ler no espaço construído manifestações da cultura do seu tempo, ou seja, da modernidade. Dentre os mais destacados podemos citar Benjamin (1985) e Berman (1987), privilegiando a perspectiva histórica e cultural, e Harvey (1989), privilegiando o enfoque espacial, porém sem se deter numa abordagem sobre a moradia.
Apesar dos seus méritos inquestionáveis, muitas destas abordagens, tanto sobre habitação quanto sobre modernidade, revelam-se restritas ao seu campo de saber, por vezes exigindo conhecimento prévio de sua especificidade e de sua linguagem.
Para alcançar a complexidade decorrente do cruzamento dos temas abordados, adotou-se neste trabalho um enfoque interdisciplinar e abrangente, fazendo com que esta história social da arquitetura e da cidade fosse também uma leitura original da modernidade carioca. Neste sentido, pode-se esperar uma significativa difusão desta publicação no meio acadêmico e cultural do Rio de Janeiro, pois abrange as áreas de arquitetura, urbanismo, história urbana, história da cultura, geografia urbana, antropologia e sociologia, assim como leitores de diferentes perfis, incluindo estudantes, professores e profissionais destas áreas, colecionadores e admiradores da bibliografia carioca.
A proposta deste trabalho é a reconstituição histórica das formas de moradia coletiva na cidade do Rio de Janeiro. Trata-se de uma incursão na história das nossas formas de morar e das representações que se fizeram delas nos tempos modernos, particularmente nos séculos XIX e XX, contribuindo para o entendimento dos processos de formação e de transformação dos espaços de moradia cariocas. Neste sentido, este trabalho se inscreve no campo da história social da arquitetura e do urbanismo, que no Brasil foi inaugurada com a obra “Quadro da Arquitetura no Brasil” (Reis Filho, 1978). Mais ainda, entendemos que a habitação deva ser considerada em sua materialidade e também em sua dimensão simbólica, através das imagens e idéias que os diferentes segmentos sociais fizeram de suas moradias e de seus espaços habitacionais e urbanos. Percorrendo a trajetória dos seus diferentes tipos, que se constituíram em expressões simbólicas tanto positivas quanto negativas da cidade moderna, propõe-se também fazer uma leitura da modernidade que ultrapassa os limites da arquitetura e do urbanismo.
O livro compõe-se de introdução e três partes. Na introdução discutimos alguns conceitos de habitação e apresentamos nosso objeto de estudo; discutimos referências teóricas básicas sobre habitação, história e modernidade, comentando rapidamente a metodologia adotada. Em seguida comentamos sobre a moradia nos tempos modernos em várias cidades e/ou países. Nesta revisão bibliográfica recortamos os aspectos da habitação que queremos destacar: a condição de coletiva e sua inserção na cidade moderna, apresentando um amplo painel sobre estudos relativos a esta temática. A condição de modernidade e o processo de modernização completam esta revisão.
A primeira parte é uma história da habitação coletiva na cidade do Rio de Janeiro do cortiço ao edifício de apartamentos. Apesar de trabalharmos com tipos correntes que se sucedem ao longo de determinados períodos históricos, esta sucessão não é linear. Muito pelo contrário, destacamos nesta história grandes momentos de rupturas, mas também as permanências, fortes impactos e sutis modificações, além de uma série de contradições inerentes ao processo de transformação da moradia nos tempos modernos. Os padrões de habitação coletiva que se sucederam até se definir o hoje habitual edifício de apartamentos foram pesquisados em diversas etapas, em fontes primárias e secundárias, utilizando-se diferentes métodos. A investigação sobre as origens do edifício de apartamentos no Rio de Janeiro nos anos 1920 e 1930 é a grande contribuição original deste trabalho. Ela se apoia em levantamentos bibliográfico, documental, de classificados de jornal e pesquisa de campo.
A segunda parte trata das transformações que os espaços da habitação coletiva e da cidade passaram, inclusive as de caráter simbólico. Finalmente, na terceira parte, mostramos como e porque compreendemos a habitação coletiva enquanto expressão privilegiada da modernidade, colocando-a num contexto bem mais amplo do que o habitual, da arquitetura e do urbanismo. Apoiados no quadro metodológico e teórico adotados, apresentamos algumas reflexões sobre temas em que se articulam a moradia e alguns dos sentidos da modernidade. Nesta parte, retomamos os principais pontos apontados na revisão bibliográfica e na reconstituição histórica, na forma de uma colagem de reflexões sobre algumas especificidades dos tempos modernos, examinados a partir da moradia. Analisamos a fragmentação do espaço, a modernização da cidade e da moradia, a socialização e a individualização da moradia, entre outras marcas e contradições da modernidade. Demonstramos como o processo de modernização carioca é excludente, enfocando a exclusão, através de momentos, processos, mecanismos e agentes sociais implicados. Finalmente, analisamos as construções como expressão da modernidade, a modernidade na arquitetura e a arquitetura moderna.
Bibliografia
Abreu, Maurício de Almeida (1987). Evolução Urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, IPLAN/ Jorge Zahar Editor.
Abreu, Mauricio e Vaz, Lilian (1991). Sobre as Origens da Favela. In: Novas e Velhas Legitimidades na Reestruturação do Território. Anais do IV ENANPUR.
Benchimol, Jaime Larry (1990). Pereira Passos: um Haussman Tropical. Rio de Janeiro, Biblioteca Carioca.
Benjamin, Walter (1987). Magia e Técnica, Arte e Política - Ensaios sobre Literatura e História da Cultura. São Paulo, Brasiliense.
Berman, Marshall (1986). Tudo que é Sólido Desmancha no Ar - A Aventura da Modernidade. São Paulo, Cia das Letras.
Costa, Lucio et alii (1965). O Rio de Janeiro em seus Quatrocentos Anos. RJ/SP, Distribuidora Record.
Gordilho-Souza, Angela, org. (1997) Habitar contemporâneo. Novas questões no Brasil dos anos 90. Salvador, FAUBA/CADCT.
Goulart Reis F., Nestor (1978). Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo, ed. Perspectiva.
Harvey, David (1989). The Condition of Postmodernity - An enquiry into the Origins of Cultural Change. Basil Blackwell.
Lobo, Eulália Maria Lahmeyer; Carvalho, Lia de Aquino; Stanley Mirian (1989). Questão Habitacional e o Movimento Operário. Rio de Janeiro, UFRJ.
Pasternak, Suzana e Sachs, Celine (1990). Brazil. In: van Vliet, W. International Handbook of Policies and Practices. New York, Wesport, London, Greenwood Press.
Porto, Rubens (1938). O Problema das Casas Operárias e os Institutos e Casas de Pensões. Rio de Janeiro, s/ed.
Ribeiro, L. Cesar de Q. Dos cortiços aos condomínios fechados: as formas de produção da moradia na cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, IPPUR/UFRJ/FASE.
Santos, Paulo F. (1981). Quatro Séculos de Arquitetura. Rio de Janeiro, IAB.
Santos, Carlos Nelson Ferreira (1983). Velhas Novidades nos Modos de urbanização Brasileiros. In: Valladares, L. org. Habitação em Questão.
Valladares, Licia (1978). Passa-se uma Casa. Rio de Janeiro, Zahar.
Weid, Elisabeth von der e Bastos, Ana Marta Rodrigues (1986). O Fio da Meada. Estratégia de Expansão de uma Indústria Textil: Companhia América Fabril: 1978-1930. Rio de Janeiro, Fundação Casa Rui Barbosa.
[1] Modernidade e moradia – Habitação coletiva no Rio de Janeiro, séculos XIX e XX é um livro baseado na tese de doutoramento apresentado à FAU/USP em 1995 sob o título Uma História da Habitação Coletiva na Cidade do Rio de Janeiro - Estudo da Modernidade através da Moradia, tese foi aprovada por unanimidade com grau 10 e recomendação para publicação
[2] Anuário Estatístico da Cidade do Rio de Janeiro 93/94, 3-76.