CARTA O BERRO
Vulnerabilidade ideológica e hegemonia
Samuel Pinheiro Guimarães
Secretário-geral do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
A sociedade brasileira se caracteriza por crônica vulnerabilidade externa com
facetas econômica, política, tecnológica, militar e ideológica. A mais
importante, pois influencia todas as políticas e atitudes do Estado e da
sociedade brasileira, e agrava as outras facetas da vulnerabilidade externa, é a
de natureza ideológica. É ela que, pelos diversos mecanismos, mantém e aprofunda
a consciência colonizada não só das elites dirigentes tradicionais como até de
segmentos das oposições políticas, intelectuais, econômicas e burocráticas. A
consciência colonizada se expressa em uma atitude mental timorata e
subserviente, que alimenta sentimentos de impotência na população, ao atribuir
as mazelas brasileiras à escassez de poder do Brasil, à incompetência
brasileira, ao nosso caipirismo, ao arcaísmo social, à xenofobia etc., enfim, à
nossa inferioridade como sociedade.
A vulnerabilidade ideológica está estreitamente relacionada com a ampla e
crescente hegemonia cultural americana na sociedade brasileira, que se exerce em
especial pelo produto audiovisual, veiculado pela televisão e pelo cinema,
articulado com a imprensa, o disco e o rádio. A vulnerabilidade ideológica é de
tal ordem que a opinião de um sociólogo francês ou de um economista americano,
ou os aplausos estrangeiros a um dirigente brasileiro, ou a opinião de uma
agência de análise de risco, ou de um organismo internacional têm enorme impacto
positivo ou negativo sobre a visão das elites sobre a situação e as perspectivas
do Brasil, gerando manifestações autocongratulatórias ou protestos de repulsa e
lamentos de decepção. A sociedade brasileira é vulnerável ideologicamente porque
parte majoritária de suas elites, ao invés de procurar governar para o povo,
prefere governar para os interesses internacionais de toda a ordem. Desejam
essas elites serem aceitas como representantes de um país normal, de uma
sociedade jovem, mas civilizada, que não confronta os interesses das Grandes
Potências e com elas colabora. As opiniões sobre o Brasil de intelectuais,
políticos ou empresários estrangeiros são recebidas com maior respeito,
admiração e concordância do que aquelas emitidas por brasileiros (a não ser
quando esses refletem a opinião estrangeira), por setores importantes da mídia a
qual repercute tais julgamentos, e pelas elites nativas de mentalidade colonial.
A vulnerabilidade ideológica faz com que as elites intelectuais e dirigentes
procurem ver sempre em modelos estrangeiros as soluções para o
subdesenvolvimento econômico, para o atraso cultural, para o autoritarismo
político, para o arcaísmo institucional brasileiro. Vão elas buscar modelos
institucionais no exterior (agências reguladoras, Banco Central autônomo etc.),
estratégias econômicas (câmbio fixo e sobrevalorizado, metas de inflação etc.),
teorias militares (segurança cooperativa etc.), modelos educacionais (o
currículo escolar, o sistema de créditos na universidade etc.). Esquecem que
esses modelos e teorias foram desenvolvidos com base na experiência histórica de
sociedades que tiveram evolução e características distintas da brasileira.
Assim, esses modelos e teorias transplantados para o Brasil definham ou
degeneram, para desespero de seus propugnadores colonizados.
A questão da vulnerabilidade ideológica é fundamental, pois ela se refere
diretamente à coesão ou desintegração social, à construção ou fragmentação
nacional, à auto-estima ou auto-rejeição e à própria possibilidade de êxito de
uma política de desenvolvimento econômico (não apenas de crescimento desigual),
democrático (não-oligárquico e não-plutocrático) e social (cultural e
espiritual) da sociedade brasileira.
IDENTIDADE
A vulnerabilidade ideológica afeta a identidade cultural brasileira. Esta
identidade é fundamental para os que admitem que a sociedade brasileira se
desenvolveu em um território geográfico específico, com uma composição étnica e
religiosa distinta, com uma experiência histórica, política e econômica única. A
consciência disto é essencial para que a sociedade possa encontrar soluções
próprias para seus próprios desafios. A vulnerabilidade ideológica e a hegemonia
cultural estrangeira impedem, dificultam e confundem os distintos segmentos da
sociedade brasileira e tendem a eliminar a consciência de suas características
específicas e da própria evolução dessas características, que é a sua história.
A consciência que a sociedade adquire de si mesma, isto é, a consciência de cada
cidadão e dos grupos sociais sobre as características da sociedade em que vivem
depende de uma representação ideológica, que depende, por sua vez, de
manifestações culturais as mais distintas que interpretam e criam o imaginário
nacional do seu passado, de seu presente e de seu futuro. Essa criação do
imaginário, dessa visão do passado, do presente e do futuro, é, em sua quase
totalidade, alheia à experiência direta dos indivíduos. Quanto ao passado e ao
futuro, porque não o viveram nem o viverão. E quanto ao presente, porque não
podem dele participar, ter a experiência direta de todas as situações sociais
pela impossibilidade da ubiqüidade. Assim, a esmagadora maioria dos fatos e das
interpretações que conhecemos sobre o passado do próprio Brasil e do mundo
depende da elaboração intelectual e cultural de historiadores e artistas, em
especial os criadores de obras audiovisuais e literárias, por mais que sejam
elas consideradas apenas como obras de ficção. Muito daquilo que um brasileiro
imagina a respeito de situações e valores individuais e sociais é uma construção
cultural/literária/audiovisual/noticiosa, muitas vezes repleta de preconceitos e
estereótipos. Tudo o que sabemos sobre a história da sociedade brasileira não
foi vivido por nós, mas sim elaborado por terceiros.
A vulnerabilidade ideológica se acentua com a crescente hegemonia cultural
estadunidense no Brasil. Na medida em que a elaboração, produção e difusão
cultural brasileira, audiovisual ou não, está sujeita à hegemonia cultural
estrangeira, a formação do imaginário nacional acaba se realizando de forma
fragmentada e claudicante. As interpretações da realidade mundial elaboradas
pelas manifestações culturais hegemônicas estadunidenses passam a predominar,
refletindo os preconceitos e os estereótipos daquela cultura.
A construção da identidade cultural decorre da produção de manifestações
culturais que abrangem desde as atividades da imprensa à elaboração científica e
artística, mas em especial, devido ao seu extraordinário alcance, às
manifestações audiovisuais (documentários, filmes, séries e noticiários). A
construção desta identidade não se contrapõe à necessidade de diversidade
cultural e muito menos ao diálogo com a cultura estrangeira. Contrapõe-se, isto
sim, à hegemonia das manifestações culturais estrangeiras sobre a cultura
brasileira no próprio território brasileiro. O estímulo e o acesso à diversidade
das manifestações culturais permitiriam à sociedade brasileira ter acesso a
distintas e, muitas vezes, contraditórias visões do mundo, das relações
interpessoais, das questões existenciais. A questão estratégica é, pois,
imaginar mecanismos que ampliem o acesso de todos, sejam eles artistas,
intelectuais, políticos ou simples brasileiros, à miríade de manifestações
culturais brasileiras e de todas as sociedades que constituam a diversidade
cultural planetária e que fortaleçam e enriqueçam a nossa própria identidade,
combatendo a hegemonia cultural de qualquer origem no Brasil. Trata-se de
definir uma política cultural, de comunicação e de educação,
não-assistencialista, integrada e voltada para o projeto de construção da
sociedade brasileira. E para isto é indispensável discutir a questão cultural
também em seus aspectos econômicos, políticos e sociais.
COMUNICAÇÃO E EDUCAÇÃO
A cultura pode ser definida em sentido estrito como o conjunto de atividades
humanas, de natureza não-utilitária, que expressam e reproduzem a experiência
individual ou coletiva, a disseminam no presente e a transmitem no tempo, de
geração em geração. Sendo a experiência humana variável no espaço, devido a
circunstâncias geográficas, étnicas, políticas e econômicas distintas, há
naturalmente culturas nacionais específicas que, todavia, não sendo estanques,
se influenciam umas às outras. Não há culturas nacionais superiores, assim como
não há raças superiores, mas pode haver um distinto modo de elaboração das
manifestações culturais em decorrência de circunstâncias históricas, do processo
de acumulação de riqueza e de conhecimento técnico-artístico em determinadas
sociedades e pode haver, por razões econômicas e políticas, maior capacidade de
difusão e penetração social, a nível global, de certas culturas.
A cultura corresponde a um conjunto de manifestações das diversas artes
tradicionais, tais como a música, a escultura, a pintura, a literatura, a
arquitetura, a dança, o teatro, o cinema e de outras formas, como a gravura e a
fotografia. As artes e as manifestações artísticas não se identificam com o seu
suporte físico nem com o seu veículo de difusão, ainda que veículos e suportes
específicos afetem a obra de arte e de certa forma alterem o seu conteúdo e o
seu impacto social, econômico e político, e passem assim a ser de grande
relevância para a definição e execução de uma política cultural eficaz.
A cultura popular se expressa igualmente pelas manifestações das mesmas artes,
porém de forma intuitiva, artesanal, sem o mesmo domínio do conhecimento técnico
e sem a aplicação estrita de regras eurocêntricas que correspondem
tradicionalmente a cada arte. Não se trata de discutir ou decidir se a cultura
erudita é superior à cultura popular, pois elas se influenciam e têm funções
sociais semelhantes. Um artista popular pode ser capaz de refletir de forma
extraordinária a experiência humana, de um certo momento e meio social enquanto
um artista erudito pode falhar nesse propósito, apesar de seu maior domínio,
digamos, das técnicas tradicionais eurocêntricas. As características da obra de
arte, da manifestação cultural e seu impacto dependem do nível técnico com que
se realizam, mas também da criatividade individual do artista e do alcance do
veículo de difusão.
Sendo as manifestações culturais o modo como a experiência humana, que se
verifica em uma certa dimensão geográfica, se transmite no tempo, a questão da
cultura, da produção e da difusão cultural, está estreitamente vinculada à
formação e à permanência da nação como conjunto de indivíduos, que em geral
habitam um mesmo território, que compartilham uma experiência histórica comum e
que têm a aspiração de construir um futuro comum, ainda que as visões sobre este
futuro possam ser distintas.
A Nação, a sociedade, se organiza como Estado, que pode ser definido como um
conjunto de instituições que elaboram normas, as executam e as sancionam com o
objetivo de disciplinar as relações de toda ordem entre seus integrantes para
que sejam pacíficas e consensuais, e de defender e promover seus interesses e
direitos em suas relações com as demais sociedades e Estados. O enfraquecimento
da produção cultural de uma nação leva ao enfraquecimento dos laços que vinculam
seus integrantes, de sua memória do passado e da experiência comum e de sua
aspiração de construção de um futuro compartilhado. Naturalmente que o
enfraquecimento da cultura nacional diante da hegemonia de manifestações
culturais de outras sociedades, que são necessariamente distintas e que não
correspondem às experiências daquela Nação em sua trajetória histórica, corrói
sua auto-estima e enfraquece a capacidade do Estado de promover e defender os
interesses nacionais. A maior parte das imagens que os indivíduos formam em seu
consciente e inconsciente sobre as experiências humanas individuais e coletivas
e que constituem a base para suas ações não decorre de sua experiência direta,
mas sim são o resultado de informações que se transmitem pela mídia escrita e
audiovisual e que utilizam recursos artísticos, culturais. Os valores sociais
são construídos, elaborados, transformados e destruídos através da influência de
um fluxo contínuo de manifestações culturais transmitidas pelos meios de
comunicação e difundidas socialmente.
Assim ocorre com a obra literária, que inclui o jornalismo, com a música, com as
manifestações audiovisuais, tais como o teatro e o cinema, transmitidos pelos
instrumentos da mídia que constituem uma indústria que recolhe, produz,
distribui e divulga as manifestações culturais. Seus diferentes setores são
constituídos pelas editoras, as empresas jornalísticas, as rádios, as companhias
de teatro, as produtoras e distribuidoras de filmes para cinema e TV, as redes
de televisão aberta e a cabo etc. A obra do escritor, do músico, do diretor de
cinema não tem impacto e função social (e nem mesmo cultural) se ela não chega
ao público, à sociedade. Para que isto ocorra é necessário que se transforme em
um produto, o mais importante da atividade humana, pois alimenta o processo
contínuo de reconstrução do passado, de tempos que os indivíduos que formam a
sociedade atual não viveram; de interpretação do vastíssimo presente do qual os
indivíduos conhecem diretamente apenas ínfima parcela; e de formação de visões
do futuro, cuja forma concreta que vier a assumir dependerá desde já do que se
pensa que ele será ou que poderá ser. Assim, a manifestação cultural tem de ser
transformada em produto econômico, isto é, em resultado de processos específicos
de produção e de distribuição física para que venha a ter impacto social e
político.
A maior parte dos produtos de consumo, tais como geladeiras, sapatos e
automóveis, tem efeito político e social diminuto sobre o consumidor e seu valor
social corresponde ao de seu suporte físico, que resulta do seu processo
produtivo, que empregou fatores de produção e gerou renda. O suporte físico do
produto cultural, ao contrário, tem um valor infinitamente inferior ao seu valor
cultural e a seu valor econômico. Basta comparar o valor do papel em que está
impressa uma obra literária, o valor da película onde está registrado um filme
ou o valor do mármore de uma escultura para se constatar esta divergência.
O valor social do produto cultural não se esgota com o seu consumo individual,
mas se reproduz no tempo, enquanto o valor social de um produto comum se esgota
com o seu consumo. A manifestação cultural transformada em produto cultural tem
um custo de produção e, portanto, gera emprego e renda, e tem um mercado onde se
confrontam as empresas que o comercializam e onde se encontra com o seu público.
Os mercados para os diversos produtos culturais têm características muito
distintas e podem vir a ser, com maior ou menor intensidade, oligopolizados, e a
sofrer distorções decorrentes de práticas de concorrência desleal e assim a
permitir margens de lucro extremas. Sem a compreensão do produto cultural como
um fenômeno cultural/econômico/político complexo não é possível a definição de
uma política cultural que leve em consideração o extraordinário potencial de
geração de emprego, de lucro e de divisas da produção e da distribuição
cultural, mas também seu papel político fundamental de formação do imaginário
social, da vitalidade da nação e do poder do Estado.
A produção cultural tem importância fundamental na política internacional. Nem
mesmo os principais dirigentes e intelectuais da nação mais poderosa do mundo
têm conhecimento direto de mais do que uma parcela ínfima da miríade de eventos
que ocorrem a cada dia em cada sociedade. Todas as decisões desses dirigentes
que afetam profundamente a realidade são tomadas a partir de informações e de
elaborações culturais que interpretam eventos e que os transmitem por meio de
manifestações culturais sob a forma de livros, filmes, notícias, relatos,
fotografias e que vão formar o seu imaginário em confronto com sua experiência
pessoal limitada e sua capacidade teórica de processar informações e de
encaixá-las em uma visão de mundo.
Assim, as imagens dos países, inclusive de seu próprio, das sociedades, dos
Estados e de seu poder são formadas por um vasto e contínuo processo
multifacetado de elaboração cultural que gera nos diferentes setores sociais
essas imagens. A própria ausência de imagem própria ou a existência de imagem
distorcida, fragmentada ou incompleta afeta não somente as decisões de
dirigentes de terceiros Estados em suas relações com o Estado cuja imagem é
fraca, mas também a própria sociedade desse Estado, com efeitos sobre sua
auto-estima, sua capacidade de apoiar seus dirigentes e a capacidade desses
dirigentes de agir para enfrentar os seus desafios internos e externos.
Daí a importância que as grandes potências, e em especial os Estados Unidos,
conferem à sua indústria cultural lato sensu e a prioridade que atribuem ao
objetivo de garantir o livre acesso de seus produtos culturais aos mercados
culturais de todos os países — ou seja, ao acesso a todas as estruturas e meios
de produção e de difusão de produtos culturais e de formação do imaginário das
sociedades de terceiros países, com objetivos de natureza cultural, econômica e
também política.
FINS POLÍTICOS
Nos mercados culturais, a estrutura dos mercados e suas características
específicas de produção e distribuição fazem com que as dimensões das empresas
tenham, como em mercados de produtos normais, enorme importância. Assim como nos
mercados de produtos de consumo cabe ao Estado impedir a monopolização, a
oligopolização, a formação de cartéis e a prática de concorrência desleal, no
interesse de proteger o consumidor individual de preços abusivos e a sociedade
da geração de lucros excessivos. Com maior razão cabe a ação do Estado nos
mercados culturais onde os produtos, além de sua importância econômica, têm uma
importância política fundamental.
Cabe ao Estado garantir a livre competição em cada mercado cultural com muito
mais rigor do que nos mercados de produtos comuns de consumo, tendo em vista os
efeitos sociais e políticos dos produtos culturais sobre a sociedade, com os
objetivos de evitar a hegemonia cultural de outras sociedades; de estimular a
mais ampla e diversificada troca de informações culturais com o exterior; de
promover a produção cultural doméstica, única capaz de fortalecer e articular o
conhecimento da sociedade de si mesma, o qual é indispensável para a formulação
de um projeto de futuro e para definir a estratégia e os meios físicos e
políticos para implementá-lo, em especial em grandes Estados da periferia como o
Brasil.
A sociedade brasileira se encontra hoje sob a hegemonia cultural estrangeira, em
especial da produção cultural estadunidense, que decorre das estruturas de
mercado que se criaram ao longo do tempo, devido à incompreensão, à miopia e à
omissão dos governos em relação à política cultural, de comunicação e de
educação. Essa omissão de política cultural, ou melhor, essa miopia em relação à
função política da cultura e às inter-relações entre produção cultural,
estruturas econômicas de produção e de comercialização cultural, fizeram que, em
nome da liberdade de expressão e de manifestação cultural se condenasse a ação
corretora do Estado e se permitisse a formação e a ação de estruturas
oligopolísticas. Ao mesmo tempo se mantinha viva, porém em estado de asfixia, a
produção cultural brasileira, sem criar os instrumentos que permitissem sua
competição com a produção cultural estrangeira que, ao se realizar e se difundir
pelas megaempresas multinacionais, oligopoliza o mercado consumidor pelo
exercício de controle e influência sobre as estruturas de difusão cultural, tais
como editoras, gravadoras, exibidoras e redes de televisão.
O Estado brasileiro tem limitado sua ação a um modesto apoio assistencialista,
colonizado e envergonhado à produção cultural de elite ou de pequeno impacto
social por meio de isenções fiscais, sem se preocupar em promover e garantir a
livre competição nos mercados culturais de massa, onde se forma o imaginário
social, essência da própria existência da Nação brasileira e da possibilidade
desta se organizar para enfrentar seus extraordinários desafios e realizar seu
potencial.
QUESTÃO DE EDUCAÇÃO
A questão do imaginário social e, portanto, da política cultural e de
comunicação está profundamente vinculada à questão do sistema educacional. Esse
sistema tem sido articulado pelo governo como um processo de formação de
indivíduos como produtores de maior ou menor qualificação técnica e não como um
processo de formação de cidadãos. Os valores transmitidos pelo sistema
educacional são os valores da produção material e da maximização do consumo
individual, do ser humano como unidade de trabalho e não como cidadão político
solidário, digno de uma vida espiritual superior, para além dos programas
degradantes e idiotizantes de televisão, atividade que consome em média mais de
quatro horas diárias do cidadão brasileiro.
Se deduzirmos o tempo médio de trabalho, de transporte, de alimentação e de
repouso quatro horas significam mais de 80% de seu tempo diário, digamos livre.
Este é o tempo de que pode dispor para seu aperfeiçoamento como cidadão, como
trabalhador e como ser humano. Esse tempo foi capturado pela televisão, que os
Estados e os governos têm tratado como uma atividade econômica normal e não como
um veículo com influência extraordinária sobre a sociedade e seu imaginário. No
Brasil, a situação se agravou com a emenda constitucional que permitiu a
participação do capital estrangeiro na propriedade dos veículos de comunicação e
com a ausência de regulamentação do artigo 221 da Constituição Federal que se
refere à programação das emissoras de rádio e televisão.
Por outro lado, quaisquer que sejam os métodos, a qualidade e os esforços
utilizados para aperfeiçoar o sistema educacional formal, são eles frustrados,
pois as crianças e os jovens utilizam grande parte de seu tempo fora das salas
de aula em frente à TV de programação mais ou menos comercial, mas onde há um
permanente ainda que difuso processo de transmissão de um imaginário
estrangeiro, além de estímulos ao consumo conspícuo, ao individualismo, à
violência, à banalidade e ao culto do corpo.
Assim, a escola tem de ser reconstruída como o veículo de transmissão de valores
culturais brasileiros enquanto a televisão e os meios de comunicação em geral
podem e devem ser estimulados a diversificar sua programação de modo a ampliar a
gama de influências culturais brasileiras e estrangeiras a que deve ter acesso a
sociedade brasileira, e assim ampliar sua margem de escolha e de reflexão sobre
os valores sociais. Os recursos da coletividade, que são arrecadados por meio de
impostos, devem estar a serviço de uma política cultural que amplie a competição
entre produtos culturais de diferentes origens, estimule a produção cultural
brasileira e diversifique as influências culturais. Aquelas empresas de produção
e difusão cultural que não desejem diversificar a origem dos produtos culturais
com que trabalham e que desejem privilegiar a produção cultural estrangeira
podem e têm o direito de fazê-lo, mas com seus próprios recursos e não com os
recursos da coletividade.
PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO
É necessário distinguir, na elaboração de uma política cultural, os aspectos de
preservação do patrimônio material e imaterial, de apoio e estímulo à produção
cultural dos artistas da ação junto às empresas de produção e difusão cultural
de massa para estimular a diversidade cultural e impedir a hegemonia de
manifestações culturais de uma origem específica sobre a manifestação cultural
brasileira em cada setor. Os estímulos à preservação do patrimônio e à produção
cultural individual não terão impactos sociais, políticos e econômicos se não
forem conjugados com a possibilidade de sua difusão pelos veículos econômicos. A
atual legislação de concessão de isenções fiscais a empresas para investimentos
em atividades culturais (as leis Sarney, Rouanet, a legislação audiovisual)
possibilita modestos recursos sociais à produção cultural, mas não garantem sua
difusão e, portanto, o cumprimento de sua função social.
A distinção entre manifestações culturais de público restrito e manifestações
culturais de massa não pode ser feita de forma absoluta, pois não somente as
manifestações culturais se influenciam umas às outras de forma muito importante
como às vezes se combinam ou servem umas de matéria-prima para outras. Assim, a
manifestação cultural de público restrito, como, por exemplo, uma obra
literária, pode servir de matéria-prima para manifestações culturais de massa,
como o filme e a novela de televisão.
Uma política cultural eficaz deve estar articulada com as políticas de
comunicação e educação e deve ter como seu objetivo estratégico permanente a
redução da hegemonia cultural de qualquer manifestação estrangeira face à
produção cultural brasileira e a ampliação da diversidade de oferta cultural à
disposição da sociedade brasileira. Além das diversas medidas e da legislação
hoje existente, que devem ser aperfeiçoadas, podem ser imaginadas diversas ações
na área da difusão cultural.
A legislação pode e deve estabelecer tratamento fiscal diferenciado e mais
favorável às empresas produtoras e às empresas difusoras de produtos culturais
que em suas atividades e programação ampliassem a participação das manifestações
culturais brasileiras. O BNDES, um dos maiores bancos de investimento do mundo,
pode e deve estabelecer linhas de crédito especiais para financiar investimentos
e a operação de empresas que assumam o compromisso de diversificar sua atividade
de produção e difusão cultural e de garantir a igualdade de participação do
produto cultural brasileiro face ao produto cultural de qualquer outra origem. A
legislação pode e deve estabelecer limite máximo de ocupação do mercado para
produtos audiovisuais quando há situações de oligopólio e integração vertical
com risco não só de hegemonia cultural como de exclusão do produto cultural
brasileiro. O limite do número de cópias por lançamento de filme é um exemplo
desse tipo de medida.
Na área da educação, a legislação deve ampliar gradativamente o número de horas
de permanência dos estudantes na escola para reduzir sua exposição à TV assim
como incluir entre as atividades escolares obrigatórias a programação cultural
brasileira e fornecer os meios a cada escola pública e privada de ter acesso a
videotecas básicas, a discotecas básicas e a bibliotecas básicas. A instituição
de concursos públicos, nos diversos níveis de ensino, sobre temas culturais
brasileiros, com prêmios para professores e alunos, e a difusão por meios de
comunicação de massa de seus resultados, estimulariam o uso daquele material. O
ato de prestigiar de forma sistemática os produtores e difusores culturais
brasileiros com a presença das mais altas autoridades brasileiras a eventos
culturais significativos, assim como hoje prestigiam atletas, teria grande
importância simbólica.
Na esfera internacional, a organização de concursos internacionais de música e
literatura, com prêmios significativos, sobre temas, autores e compositores
brasileiros, teria importante impacto para o conhecimento da cultura brasileira,
dentro e fora do Brasil, com conseqüências relevantes para a formação da imagem
do Brasil.
Finalmente, toda a atenção deve ser prestada para evitar a participação do
Brasil em acordos internacionais, regionais ou multilaterais, de cunho aparente
apenas econômico cuja conseqüência seja limitar ou eliminar a possibilidade do
Estado de ter instrumentos de política para promover a diversidade cultural a
que deve ter acesso a sociedade brasileira e estimular as manifestações
culturais brasileiras e, portanto, a formação do imaginário social e a
auto-estima brasileira, indispensáveis a um projeto de desenvolvimento
econômico, político e social mais justo e mais duradouro.
Fonte:
http://www.brasildefato.com.br/debate/debate-82.htm (1ª parte) e
http://www.brasildefato.com.br/debate/debate-83.htm (2ª parte).
Esta página faz parte do sítio Pausa para a Filosofia.
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