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Comunicação oblíqua   Lista de mensajes  
Responder | Reenviar Mensaje #33419 de 39425 |


Arte Tripharia <info@...> escreveu:Data: Wed, 25 May 2005 22:42:03
+0200
De: Arte Tripharia <info@...>
Para: O Bardo na Brêtema <info@...>
Assunto: Comunicação oblíqua

Artigo publicado em A Nossa Terra, 26-V-2005,
e reproduzido aqui sob licença do autor para Arte Tripharia.
____
O Bardo na Brêtema Rudesindo Soutelo

Comunicação oblíqua

Uma leitora inteligente e perspicaz fala-me desse tipo de comunicação
que nunca encara as questões directamente e vai fazendo as beiras para
indagar ou insinuar dissimuladamente, e onde o importante é o que
nunca se diz, como esquivando o confronto.

Li uma crítica musical dum concerto no Auditório de Compostela onde a
hipérbole, o demoníaco, a frescura e outros artifícios lexicais
borbulhavam a cachão, mas nada dizia da única obra do século XXI que
figurava no programa, nem sequer a mencionava. Numa entrevista a
Teresa Berganza publicada em Vigo perguntam-lhe pela música
contemporânea -sem especificar de quem- e, depois de a (des)qualificar
de dissonâncias sem melodia, disse que só cantava a Antón García
Abril, mas não esclareceu de quem é extemporâneo o tal autor. A
Conselharia de in-Cultura galega organiza concertos e Festivais ao
longo do ano com muito divo e pasmarote para convencer a sociedade de
quanto cuidam do nosso bem-estar espiritual, mas nem um só compositor
galego se inclui nos programas.

"A música culta galega existe e com quanta qualidade!" comentava
visivelmente emocionado um ouvinte madrileno ao finalizar o concerto
de compositores galegos actuais celebrado o pasado dia 16 de Maio no
Ateneo de Madrid com motivo do dia das letras galegas. Escutaram-se
dez obras, das quais sete eram estreias absolutas, e foram gravadas
em directo pela Rádio Clássica de RNE para emitir nos próximos meses.
O êxito do concerto deve-se principalmente ao pianista, Yerko P.
Ivánovic-Barbeito, que soube conformar um programa de contrastes,
interesse musical e lógica discursiva na sucessão de obras, todas elas
pertencentes ao Corpus Musicum Gallaeciae, e sobretudo à emotiva e
extraordinária execução que fez o intérprete. Escutaram-se obras
de Juan Durán, Rogélio Groba, Yerko P. Ivánovic-Barbeito, Paulino
Pereiro, Paz Pita, Glória Rodrigues-Gil e Rudesindo Soutelo. A mágoa é
que essas estreias não se puderam ter feito na Galiza, e ainda que às
instituições culturais galegas que se lhes ofereceu repetir o concerto
não mostram interesse nenhum. Também não vi no concerto os
responsáveis do Concurso de Piano "Compositores de España", que abriu
uma sucursal em Vigo para nos redimir do atraso ancestral em que nos
sumiu a "doma y castración del Reino de Galicia" instaurada pelos
nefandos "reis caóticos" por ter a nobreza galega defendido o legítimo
direito de Juana "a beltraneja" ao trono de Castela. Quando apontei
aqui que este concurso é um insulto aos criadores galegos,
imediatamente chamaram à Associação Galega de Compositores para
queixar-se de que não encontravam obras da nossa música para lhes
sugerir aos concorrentes ao prémio marginal de "música galega". Podem
comprá-las nas lojas de música mas parece que as querem grátis.
Começam homenageando ao "extemporâneo" Garcia Abril, e logo, como já
fizeram na edição de Madrid, homenageiam ao Marcotráfico, mas isso
também não se diz.

Numa recente entrevista, a violinista Anne Sophie Mutter respondia a
uma inocente pergunta, "Que visão tem de Mozart?", com a seguinte
precisão linguística: "Visão nenhuma. A música ouve-se". Esse rigor
disciplinado é o que lhe permite ser uma grande intérprete em
constante aperfeiçoamento, e comprometida com os compositores actuais
aos que estimula com encomendas para acrescentar o seu repertório de
concertos e recitais. Isso também lhe permite ter critério próprio e
livre sobre o acontecer quotidiano. Assim, dizia do novo Papa Bento
XVI: "É possível o que diz sobre as mulheres? Isso, hoje, não só é ir
contra dum género, é ir contra da humanidade, contra todos, e isso é
pior si se faz em nome de Deus". Outro exemplo de comunicação directa
vejo numa entrevista a Laura Alonso -Soprano galega que triunfa nos
principais cenários de Ópera-, e referia-se à Galiza com estas
palavras: "Culturalmente estamos a anos luz da Europa. Na Alemanha não
se paga um milhão de euros por uma actuação de Pavarotti nem se
organiza um festival de música como o de Compostela no Verão.
Investe-se noutras coisas. Não é questão de orçamento, senão de
ideias. Pode-se oferecer uma boa programação durante todo o ano sem
queimar os barcos em dois dias. Precisamos de bolsas de estudo,
professores, instrumentos. Na Galiza temos grandes talentos mas
desbarata-se a arte em favor do espectáculo".

A ideologia é o fundamento da cultura reaccionária mas isso é o que
sempre se elude na mensagem. Uma comunicação linear, directa,
simples, seria de grande ajuda para o desenvolvimento social. Existe
também uma comunicação transversal, interdisciplinar, que relaciona o
conjunto de saberes para elevar a convivência. Mas esta outra forma
torcida de comunicar e que tanto praticam os estômagos agradecidos do
poder para dizer o que não dizem que estão a dizer, é, como bem a
define Sílvia, a sagaz leitora, "comunicação oblíqua" e onde o
importante é o que não se diz. E não esperem um confronto com os meus
argumentos porque eles sempre respondem mordendo pela calada da noite,
sem rosto, e por surpresa.

© 2005 by Rudesindo Soutelo
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Nota: Os artigos publicados desde Setembro 2003 a Julho 2004 estão
editados por Arte Tripharia no Corpus Musicum Gallaeciae.

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Arte Tripharia
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Mar, 31 de Mayo, 2005 3:10 pm

pedro_santos3
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Arte Tripharia <info@...> escreveu:Data: Wed, 25 May 2005 22:42:03 +0200 De: Arte Tripharia <info@...> Para: O Bardo na Brêtema...
Pedro Santos
pedro_santos3
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3 de Jun, 2005
12:07 pm

Sudos a tudos, ista e a primeira mesaxe que escribo nesta lista de correio. Gustariame coñecer a letra coa que se canta un Pasodoble titulado "A Videira", sei...
Jose A. Ferreiro
joseafc84
Sin conexión Enviar mensaje
14 de Jun, 2005
12:04 am
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