Arte Tripharia <
info@...> escreveu:Data: Thu, 9 Jun 2005 13:56:24
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De: Arte Tripharia <
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Para: O Bardo na Brêtema <
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Assunto: A obtusa cultura do in-cultor
Artigo publicado em A Nossa Terra, 9-VI-2005,
e reproduzido aqui sob licença do autor para Arte Tripharia.
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O Bardo na Brêtema Rudesindo Soutelo
A obtusa cultura do in-cultor
Um jornal galego referia-se estes dias a Maximino Zumalave
-reconhecido director de orquestra e alma mater da Real Filarmonia de
Santiago- como "compositor galego". Talvez para o gazetista isso de
tocar a batuta não lhe pareça uma coisa séria e decidiu mudar-lhe o
ofício. Não é a primeira vez que a mim, talvez porque consideram um
elogio, me titulam de musicólogo e sempre respondo que eu pertenço ao
grémio dos músicos. O rigor na linguagem é fundamental para transmitir
mensagens precisas. Director de orquestra não é menos que compositor,
é outra coisa. A musicologia é uma ciência derivada do trivium
(gramática, retórica e dialéctica) em tanto que a música, junto com a
aritmética, geometria e astronomia sempre conformou o quadrivium. Não
é mais nem menos, é outra coisa. Os musicólogos estudam nas faculdades
de Filosofia e História enquanto que a música se faz nos
Conservatórios, ainda que outrora se fizesse nas faculdades de Música
e Matemática. Francisco Salinas (1513-1590), -organista, catedrático de
música na Universidade de Salamanca, autor do "De Musica libri septem"
(1577) e protegido de Pedro Sarmiento, bispo de Tui e logo arcebispo
de Compostela- inspirou a mais bela Ode de Fray Luis de León, na qual
diz da sua música: "E como está composta / de números concordes, logo
envia / consonante resposta; / e entrambas a porfia / mescla-se uma
dulcíssima harmonia."
Na Galiza não existe a crítica musical profissional, o qual é uma
contradição com o número de musicólogos que produz a Universidade, mas
os jornais não têm vocação pedagógica, e muito menos crítica quando o
equilíbrio da sua economia depende dos subsídios do poder. Crónicas
sociais do acontecer musical oficial numa esvaída cor de rosa é o mais
indicado para não incomodar a autoridade de cinzenta cultura. Um
jornal galego começou a publicar curiosas críticas musicais. Sabíamos
que o dinheiro pode obrar milagres, sobretudo quando é abundante e sai
do anónimo bolso dos cidadãos, mas não até o ponto de converter a
crítica em louvor, elogio, aplauso, bênção, panegírico, bajulação,
lisonja e adulação servil do poderoso in-cultor. O crítico
transformado em bajulador, louvaminha ou estômago agradecido cantando
as excelentes burrices da política pátria. Para isso servem as
medalhas e subsídios a mãos-cheias aos meios de comunicação.
O próximo 10 de Junio, dia das letras portugalegas, às 12h vai-se
celebrar no Auditório do Conservatório Superior de Música de Vigo uma
audição da aula de Gaita de fole que dirige Rebeca Carrera. Nela
vai-se estrear "Borobó", o duo de gaitas de fole que em 1999 compus
como prova de admiração a Raimundo García Domínguez, Borobó, mestre de
jornalistas, sábio tertuliano de verbo ágil e mente aguda com quem
tanto disfrutei, no Café Gijón e mais no Comercial de Madrid, e que
por avatar ou quase metamorfose tenho a honra de ocupar o espaço que
nesta hebdomadária publicação deixou o seu passamento. José Luís
Miguélez e mais Sabela Olivares são os ousados gaiteiros que assumiram
este difícil empenho. "Borobó" é o primeiro duma série de duos com os
que pretendo aliciar a criação dum repertório culto que exprima ainda
mais os recursos expressivos da gaita de fole. A dificuldade da obra
exige dum domínio técnico muito elevado e que os intérpretes
resolveram com um estudo rigoroso. Sei que Borobó, desde o seu trono
de sabedoria, sorrirá com esta homenagem póstuma. Agora só falta que
também se estreie o duo "Manuel María", homenagem ao poeta da Terra
Chã, ainda que a crítica musical subserviente ignore a realidade.
Os meios de comunicação controlados pelo Opus Dei, que na Galiza
coincidem com os que mais medalhas e ouro líquido recebem do poder,
reabrem a batalha para impedir que os autores vivam do seu trabalho, e
pretendem induzir a sociedade à rebeldia para proteger os seus
obscuros interesses. O sector mais cavernícola da direita também
aproveitou o ambiente de bronca política do PP para deslizar no Senado
uma tentativa de amordaçar os criadores, que curiosamente é aplaudida
por grupos radicais e anti-sistema numa suspeitosa maridança.
O Carminha Burrana, conselheiro in-cultor, na apresentação do Festival
Internacional de Música, onde a música galega foi sistematicamente
ignorada, fala da "sensibilidade" do Vice-rei de Compostela e do
"interesse de projectar" a Galiza, e ainda tem a pouca vergonha de
dizer que está a fazer "cultura culta" frente a "cultura obscura" dos
que não comungamos com as suas rodas de moinho. É a mesma cultura que
vende a Junta para atrair investidores estrangeiros, pois publicaram
um anúncio num jornal económico da Suécia que oferece salários
inferiores aos europeus e flexibilidade de despido mais um 40% de
subsídios para o investimento. E resume: "excelente qualidade de vida
num estável ambiente social", isso sim, na linha terceiro-mundista do
anunciado roubo de votos do preboste Baltar. A obtusa cultura do
in-cultor. Mais nunca.
© 2005 by Rudesindo Soutelo
ant@...
Nota: Os artigos publicados desde Setembro 2003 a Julho 2004 estão
editados por Arte Tripharia no Corpus Musicum Gallaeciae.
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