6-I-2008
Artigo encomendado pelo Portal Galego da Língua e publicado hoje 6-I-2008.
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O Bardo na Brêtema
Rudesindo Soutelo
Só os ignorantes
A Lei 5/1984, de 5 de Maio, no seu artigo 4º declara Hino da Galiza a obra de
Pascual Veiga com texto de Eduardo Pondal. Em Fevereiro de 1985, Rogélio Groba
entrega as versões oficias do Hino que lhe encomendara a Junta. O Decreto
73/1985, de 18 de Abril, estabelece as especificações técnicas da Bandeira e o
Escudo, mas o Decreto de especificações técnicas do Hino, com as partituras
realizadas por Groba para serem interpretadas nos actos oficiais nunca foi
publicado, ainda que a Conselharia da Presidência as divulgou massivamente em
gravações e publicações. O centenário do Hino era uma oportunidade histórica
para corrigir esse erro ou omissão e reconhecer oficialmente a contribuição do
Maestro Groba para a normalização do Hino, mas o desatino político não tem
limites.
Não se sabe bem quem é o autor dos disparates ou desvarios que está a dizer o
Presidente Tourinho e o seu Governo na questão da partitura do Hino. Pelo que
parece, o autor das versões oficiais encomendadas pelo Conselheiro da
Presidência José Luis Barreiro Rivas e que durante todo este tempo entregavam em
Protocolo da Presidência para os actos oficiais, foram agora consideradas
indignas, impróprias ou não afectas ao governo. Com certeza o Sinédrio oficial
ou Supremo Conselho da Ignorância Galega achou que os arranjos oficiais do nosso
Hino não devem ser assinados por um compositor, mesmo que seja o compositor
galego mais importante da história da música como é Rogélio Groba, e decidiram
encomendar as versões oficiais a uma "consultora". Que nome mais esquisito para
ocultar um badameco pedante e pretensioso disposto a trepar pela batuta acima a
fim de ostentar conhecimentos que não possui.
Na Voz de Galicia de 29 de Dezembro de 2007, o Conselheiro da Presidência José
Luis Méndez esclarece que se trata de contratar uma versão «bem orquestrada para
piano e órgão, que é o que não escreveu Veiga, porque então não existiam
orquestras na Galiza». O assessor musical que fez confundir uma orquestra com um
piano a estes políticos deve ser um néscio inspirado ou talvez o mesmo ignorante
antes assinalado, coisas da melopeia bipartida. Mas a versão para coro, a mais
utilizada, vai ser a mesma que escreveu Veiga? só para homens? Um pouco
incorrecta demais parece essa política de calar, silenciar ou apagar as
mulheres. O Conselheiro também esclareceu que as diferenças vão ser praticamente
inapreciáveis, mas não elucidou se elas eram em relação à versão original de
Veiga ou às versões popularizadas por Groba; estas sim, têm melhoras muito
apreciáveis. E se não se vão apreciar as diferenças então quer dizer que não se
trata duma questão musical senão, tão só, de ignorar os arranjos do Maestro
Rogélio Groba, esses que hoje são utilizados por todos e reconhecidos como os
que melhor exprimem a melodia de Veiga.
Desde há vários meses um autoproclamado "Colectivo progressista galego" -que
pudera estar relacionado com certos personagens influentes na Conselharia
socialista de Educação e talvez com algum interesse económico na questão, ainda
que também se lhe viu o rabo a influentes na Conselharia nacionalista da
Cultura- vem preparando o caminho para esta tolice ou ignorância por meio de
foros anónimos na internet que logo ecoa em algum meio institucional
pseudo-informativo. Criminalizaram Rogélio Groba por a lei outorgar-lhe direitos
sobre o seu trabalho e agora o governo, talvez iluminado pelo populismo
demagógico de "todos contra os direitos de autor", quer emendar uma lei de
categoria superior, e mesmo uma directiva europeia, para declarar de domínio
público um direito inalienável e irrenunciável.
Em todos os países do primeiro mundo, qualquer hino está sujeito às leis de
direito de autor, mesmo o Hino europeu que é o final da nona sinfonia de
Beethoven está submetido à lei. E a lei diz que todos os actos oficiais estão
isentos de pagamento por direitos de autor mas não priva o compositor de nenhuma
das suas legítimas prerrogativas exclusivas e ainda impede que o autor possa
vender ou transferir os seus direitos de autor a terceiros. Portanto, o texto
que figura na web oficial da Conselharia de Cultura publicado a 28 de Dezembro
de 2007, onde se diz: "o autor do arranjo musical deverá ceder os seus direitos
de reconhecimento da autoria e da integridade da obra", é de uma supina
ignorância legal. Ou será que foi a notícia governamental do dia dos inocentes?
As versões oficiais dos hinos são aquelas que uma lei, decreto ou norma
estabelece como as únicas que devem ser interpretadas em actos oficiais. Fora
disso não existe instrumento com força legal suficiente para obrigar alguém a
utilizar uma determinada versão e só se poderia proibir uma versão se esta
atentasse contra a dignidade ou integridade da obra. Cada certo tempo é
necessário adaptar as versões oficiais às evoluções que experimentam as
distintas formações musicais e aí deve intervir um compositor competente e não
qualquer badameco. Quando o governo de José Maria Aznar decidiu actualizar as
versões oficiais do Hino espanhol, antes negociou com os herdeiros de Bartolomé
Pérez Casas para cederem ao estado a exploração do Hino. Pagaram uns setecentos
oitenta mil euros por esse contrato e agora o 95% dos rendimentos económicos que
gera a utilização do Hino é recebido pelo estado espanhol. Mas no reino dos
rumorosos pretendem que as sociedades de gestão dos direitos de autor de todo o
mundo apliquem a ignorância galega quando soar o nosso Hino. Que alguém com um
pouco de sentidinho esclareça estes políticos sobre o que é inalienável e
irrenunciável, e que num estado de direito o Hino também está submetido à Lei.
A 24 de Julho de 2007, o jornal El País publicou que os rendimentos económicos
do Hino galego não superaram os 200 Euros no último ano. Esses rendimentos são
recebidos por Groba e pela editora Arte Tripharia com a qual Groba contratou a
edição. Com esse dinheiro ninguém irá ficar rico mas a editora declara no
catálogo e nas suas edições que esses rendimentos são destinados à publicação do
"Corpus Musicum Galleciae". Pouco ou nada se pode publicar com tão insuficiente
pecúlio, por isso não estranha que depois dos furibundos e cobardes ataques
anónimos que recebera em foros da internet à conta do Hino, anunciara que se vai
embora. Uma editora de música culta com um extenso catálogo que quis assentar na
Galiza e que defende a nossa língua culta em todas as suas edições não deveria
ser ignorada pelos políticos; pelo contrário é desprezada, talvez por defender a
expressão culta da música e da língua. A editora chegou a ser oferecida
gratuitamente a instituições galegas para que a exploração do seu património
ficasse aqui, mas cá ninguém se importa pela nossa música culta, ainda menos, se
os compositores estiverem vivos.
Um país que não protege os direitos de autor, começando pelo seu Hino, vai
exterminando os seus criadores até submeter-se ao colonialismo cultural da
globalização. Este é um país que sempre teve uns políticos necrófilos que só se
importam pelos criadores quando mortos, para lhes sugarem a honra e se
revestirem da sua glória. No dia em que Rogélio Groba falte, veremos uma longa
procissão de políticos a lamentar a perda, entre eles os que agora desprezam as
suas versões do Hino e andam à procura de um louvaminha que as emende
"inapreciavelmente" para assim deixar de fora o Maestro. Lástima de país, mas já
Pondal compreendera que os férridos, duros, imbecis e escuros nos iriam
acompanhar longo tempo pois "só os ignorantes... não nos entendem, não".
© 2008 by Rudesindo Soutelo
www.soutelo.eu
Nota: Para reproduzir este e qualquer outro artigo de Rudesindo Soutelo é
preciso uma autorização escrita da editora Arte Tripharia
(www.artetripharia.eu).
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Arte Tripharia
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